Leituras Literárias do Primeiro Semestre - Anos Finais
6º anos

O primeiro trimestre do 6º ano propôs um mergulho profundo no poder transformador da palavra e da imaginação. A jornada começou com “Kafka e a Boneca Viajante", de Jordi Sierra I Fabra. A obra narra um episódio real da vida de Franz Kafka que, ao encontrar uma menina chorando pelo sumiço de sua boneca Brígida, transforma-se em um "carteiro de bonecas" e passa a redigir cartas de lugares distantes para consolá-la. Ao mergulharem nessa história, nossos estudantes tocaram em temas delicados como a perda e o luto. Para exercitar a empatia de forma prática, os estudantes foram convidados a se colocar no lugar da boneca ou da menina, já crescida, e escreveram cartas de resposta a Kafka. No percurso, os estudantes compreenderam as características do gênero carta e realizaram exercícios de produção textual que revelaram a sensibilidade da turma e levaram à percepção de que o afeto e a literatura podem transformar a dor em amadurecimento.
Em seguida, os olhos dos estudantes se abriram para a grandiosidade visual de “A Invenção de Hugo Cabret”, de Brian Selznick. Acompanhando o menino órfão que vive escondido nos relógios de uma estação de trem em Paris, consertando um misterioso autômato, a turma refinou a leitura e a interpretação de palavras e imagens. Com Hugo, eles compreenderam que a realidade é um grande e complexo mecanismo, em que cada peça é essencial. Como a obra também resgata os primórdios da história do cinema, o entusiasmo culminou em um trabalho prático: em grupos, os estudantes transformaram cenas do livro em roteiros teatrais e as encenaram no palco da sala de aula, exercitando a colaboração, a oralidade e a expressão corporal.
Antes das férias, iniciamos a leitura de “A bicicleta que tinha bigodes”, de Ondjaki, obra que traz a tônica da infância em Angola, recheada de lirismo e sensibilidade. Em sala de aula, os estudantes foram convidados a apreciar essa realidade geograficamente distante ao mesmo tempo em que olhavam para suas próprias vivências, compreendendo que a infância, embora vivida em contextos socioculturais tão diversos, guarda em si um núcleo universal feito de afetos, imaginação e descobertas. Esse mergulho literário permitiu que eles refletissem sobre a alteridade, percebendo o valor da simplicidade no cotidiano e a força dos laços comunitários e de amizade retratados no livro. Trata-se de um exercício de ampliação de visão de mundo que expande o repertório cultural da turma..
7º anos

No 7º ano, as leituras aliaram o peso dos clássicos à criação individual e coletiva. O ano começou com os passos do "Cavaleiro da Triste Figura" e de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, em “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. Entre o riso e a melancolia das aventuras do fidalgo, os estudantes debateram sobre coragem, autenticidade e autoconhecimento, percebendo que a realidade muitas vezes é tingida pelas lentes de quem a fita. Para dar vida a essas reflexões, as turmas elaboraram um Podcast simulando uma entrevista com Quixote e Sancho. A atividade exigiu que os estudantes pesquisassem a fundo a psicologia das personagens para conseguir respondê-las com fidelidade, mergulhando na alteridade e na consideração de diferentes pontos de vista enquanto trabalhavam a oralidade e o uso de tecnologias digitais.
Na sequência, as páginas ganharam vontade própria em “O Livro Selvagem”, de Juan Villoro. Na história, o jovem Juan vive o incômodo da separação dos pais e vai passar as férias na biblioteca labiríntica de seu tio, onde depara-se com um volume rebelde que se esconde dos leitores. Em sala de aula, a narrativa disparou conversas maduras sobre perdas, renascimentos e o próprio ato de ler, compreendido pela turma como um ritual de entrega e ousadia.
Como desdobramento dessa experiência, os estudantes são desafiados a produzir o seu próprio “Livro Selvagem” em formato sanfonado. Esse projeto prático exige que eles concebam não apenas o texto e o mistério da narrativa, mas também a engenharia física do livro, o que exercita a autonomia e a expressão artística.
8º anos

O 8º ano utilizou a literatura como uma poderosa ferramenta para compreender a formação da sociedade brasileira e as relações humanas. O ponto de partida foi “Meu avô, os livros e eu”, de Camila Tardelli. Na obra, a jovem Natália vive o isolamento e as incertezas da pandemia, mas inicia uma jornada de autodescoberta através dos livros que seu avô lhe envia. Em sala, o diário de leitura da protagonista serviu como um disparador para conversas corajosas sobre raça e gênero. Por meio dos debates, os estudantes compreenderam que a boa literatura nos oferece o vocabulário necessário para acolher nossas próprias dores e transmutar sentimentos individuais em experiências compartilhadas.
O livro de Tardelli funciona como uma ponte para outros autores, como Carolina Maria de Jesus, cuja obra também será lida e discutida por nossas turmas. Além disso, a protagonista conhece Ariano Suassuna, autor de “Auto da Compadecida”, clássico que os estudantes do 8º ano leram e debateram neste trimestre.
O trabalho com o Auto da Compadecida resgatou a origem da palavra teatro ("lugar onde se vê"). Nas aulas, os estudantes compreenderam que a peça funciona como uma lente para olhar aspectos da nossa realidade frequentemente silenciados: o humor e a ironia cortante de Suassuna passam longe do deboche vazio; a sabedoria popular de João Grilo e as mentiras de Chicó são apresentados como estratégias de sobrevivência dos mais pobres em um mundo governado pelo dinheiro e pela hipocrisia. Essas compreensões embasaram profundos debates éticos entre os estudantes.
9º anos

As turmas do 9º ano vivenciaram leituras focadas no desenvolvimento do pensamento crítico e na compreensão da estrutura literária. A jornada começou com “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, que acompanha o cotidiano de um bando de meninos de rua em Salvador. Em sala de aula, trabalhamos com os estudantes uma distinção crucial para a sensibilidade humana: a diferença entre identificar-se com um personagem (baseado na semelhança) e solidarizar-se com ele (que implica reconhecer a dignidade do outro na diferença mais radical). Os estudantes foram estimulados a superar visões simplistas do "certo ou errado", investigando o contexto histórico que pressionava as ações dos jovens. Esse mergulho ético foi costurado com um estudo rigoroso das escolhas linguísticas de Jorge Amado, o que levou à compreensão de que a linguagem não é enfeite, é a estrutura que constrói os sentidos da obra.
Em seguida, cruzamos o país rumo à Amazônia urbana de Milton Hatoum com o romance “Dois Irmãos". O trabalho pedagógico debruçou-se sobre conceitos da teoria narrativa. Os estudantes investigaram o "tempo psicológico" — em que o relógio cede espaço ao peso da memória — e dedicaram atenção minuciosa ao foco narrativo. A turma foi desafiada a desvendar o mistério de quem de fato conta a história: um narrador sem nome, que vive em uma posição marginal na casa e cuja condição de subalternidade o impede de dizer claramente quem é.
Os estudantes identificaram o uso de imagens grotescas e a estrutura fragmentada do livro, percebendo que o autor usa esses recursos para expor o que havia de violento nas relações da família. Diante das lacunas intencionais deixadas por Hatoum sobre o destino das personagens, a turma sentiu um nítido incômodo com o "não-saber" mas, ao fim, compreenderam que a grande literatura sustenta as contradições do mundo e que aprender a lidar com a complexidade e com a ausência de respostas prontas é parte fundamental de sua formação cidadã.
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